terça-feira, 24 de março de 2009

Redescoberta

Naquele mesmo momento, inúmeras conversas se denserolavam, saberiam as pessoas as intenções daqueles a quem falavam? Ou os julgavam pelas pinturas superficiais sobre suas verdadeiras faces? Como são perfeitas as máscaras humanas: narizes, bocas, pele, sinal, voz, cabelo.

Ele a olhava bem fundos nos olhos:

- Você acredita mesmo nisso?

Para ele os seus argumentos eram frutos podres de alguma passagem ruim. Jurou que a encontraria além da retina, que o que se passava por fora seriam reflexos superficiais. O riso nas respostas dela surgiu para dar a pitada de descaso que faltava na suposta farsa de seus ideais:

- Eu faria um aborto.

Ela analisou seus repúdios e procurou adivinhar quando teria ele solidificado seus pensamentos, fazia pouco tempo e seria apenas uma fase, ou aquela conversa era a redundância de tantas outras? Teriam seus argumentos sido penetrados nas raízes fincadas de outras cabeças? Ao esbarrar nas falas e textos alheios atinou para o, talvez, grande problema da humanidade: O horizonte entre as intimidades. Vão e voltam os segredos, atira e recebe os olhares, são tantas e tantos, mas o que são? Provavelmente todas as marionetes que circulam, falam, dormem e, geralmente, acordam, devem desejar a mesma coisa, almejar à mesma utopia e serem presos aos mesmos devaneios. O problema está na má comunicação das, que por falta de um nome mais cético, devem se chamar almas. Dispomos-nos a confrontar, a julgar, e infinitos infinitivos temperados com dissabores que azedam a convivência e a estadia da humanidade. É do encontro dos extremos dos pensamentos que nascem as guerras e as raivas. Mas por quê? Dos desencontros podem surgir redescobertas. Todos os dias, nem notamos que, bêbados de sono, ousamos vestir fantasias integrais. Perdemos a capacidade do conhecimento real do outrem. Os caminhos são sempre diferentes, daí as idéias loucas que aparecem como antíteses das outras que, por suas vezes, são tampouco sãs. Mas no fundo, somos reféns da mesma obscura complexidade. E tontos, nem percebemos.

Meros tropeços podem se transformar em grandes encontros. Aquelas conversas simples com rostos já conhecidos escondem mundos vastos e carentes de exploração. E esses são estranhamente parecidos com o mundo que guardamos para nós mesmos, nas nossas mentes bizarras, que muitas vezes julgamos sós. Se olharmos bem, por trás dos acasos comuns existem verdades bem mais interessantes que a nossa rotina cega e repetitiva.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Janelas Solitárias

O sol nasce para todos, mas nem todos nascem para o sol. A essência da desigualdade está no modo distinto de seus relacionamentos com A grande estrela. Bate 30 graus, pedra sob pedra bate o pedreiro; afunda seu corpo no mar o amante, debruça-se entre o emaranhado congelado pelo ar condicionado o distante, só faz reclamar do calor quem anda de elevador, ta nem aí o circulante.

Nas férias o Sol vira pop star, todos viram os corpos pra ele e torram seus dinheiros para ficarem a sua mercê. Será a influência midiática impondo-nos a gastar no verão? Falo, porém, do Sol cotidiano. Aquele que a minha janela ostenta, mas sofre de um mal: indiferença. Não seria esse Sol o mesmo do mês passado? Será, realmente, a falta de tempo das vidas que voltaram a sua rotina? Ou na verdade, é a falta de vida que há na rotina? Os domingos de janeiro são cheios de alegria, os de fevereiro ranzinzam. Fomos acostumados a valorizar o que a televisão quer, mas e o verão constante dos nossos quintais cotidianos? Passam tais como as nuvens passageiras.

Escrevo-me, ao final de maio de 2008, em Montreal: “Fez sol, fizeram-se risos. Hoje, pela primeira vez, a senhora com quem espero o ônibus, todos os dias, a quem julgava ser a bruxa do bairro (pelas suas faces frígidas matinais diárias), doou-me um belo sorriso, um bom dia e ainda de quebra afirmou, meio me perguntando, o quanto bonita era aquela manhã!”. A partir dali, os parques ganharam vida, as ruas movimentos, os rostos colorimentos, os pedestres comprimentos, meus pés havaianas, a cidade festivais, e eu ganhei uma nova Montreal. A cidade se escondia debaixo da neve! Recebeu um quê enlouquecido nos quatro cantos, agora levantados pelos raios solares.

- Como sabem aproveitar o Sol, dizia eu. Não eram ainda férias, mas todos os dias ensolarados eram paisagens sorridentes, o silêncio chegava tarde, pois escurecia apenas aos arredores das 8 horas.

De volta ao Brasil, no país do calor, eu me encontrava com saudades do Sol canadense. No outro dia, apesar de ser agosto: céu azul, nuvens escolhidas a dedo, mas uma surpresa: parques vazios, praias e piscinas solitárias. Transporto-me para o Norte, aquela certeza de felicidade por uma janela sem cortinas.

Enfim, quando aprendemos a desvalorizar a dádiva que temos abundante? Em vez de ressaltar as seqüelas de uma sociedade errante, deveríamos, por hora, fazer companhia as janelas empoeiradas nas manhãs corridas de uma quarta-feira.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Luzes de consciência

Quando as luzes da consciência disfarçadas de raios solares acharam a fresta esquecida pela cortina, aquelas rugas matinais apareceram e os olhos se abriram. Como a ebriedade combina com a manhã! Há algo de misterioso na relatividade: não é o ambiente, as pessoas, o estado de espírito. Tudo depende da hora do dia. De noite não existe ressaca, a dor de cabeça é da vida e matinal. O cérebro de certo inchava e voltava ao normal na colaboração de uma conspiração social que a fazia não querer sair da cama, mas era preciso porque a luz começava a incomodar não apenas o seu bom-senso, mas também o calor que bate às 6 horas de um céu ensolarado. Levantou e se deparou com a única pessoa que não gostaria de ver.

- O que está fazendo aqui?

Não tinha respostas. Estava sempre rodeada de pessoas menos desagradáveis, e logo naquele dia se encontrava só e olhando para a única das quais não se sentia a vontade. Aqueles silêncios constrangedores e sinais de incomodo sempre apareciam quando elas se deparavam sem um terceiro para quebrar o clima ruim.

- Quantas vezes precisarei dizer o quanto lhe odeio?

Não se orgulhava da noite passada, das anteriores, e de uma vida toda. No entanto, quando chegava a noite, ao lado de outrem, estava bem. O seu problema era quando a inconveniente visita lhe aparecia de manhã. Engraçado que quando chega essa hora do dia, o mundo parece mais brando, porém as pessoas de ontem, em seus íntimos, continuam cruas e cruéis tal como a noite. Não se enganava pela leveza solar, julgava aquela a quem olhava como se soassem as 24 badaladas no relógio da sala.

- Por favor, desapareça!

Costumava fingir que ela própria não era ela, escolhia alguém a quem admirava e fingia ter a vida dessas para se confortar. Vivia de sonhos e imaginação para esquecer a injuria da mistura de vergonha e decepção que tinha consigo. Há muito deixara de ter pena de si mesma, passou a ter ódio. A raiva de não ser bem sucedida na vida, em todos os extremos. Era uma espécie de conforto não ser ela, mesmo que por poucos minutos, em seu mundo fantástico que tinha as beiras da cabeça, tinha dignidade e bem estar.

- Por favor, me deixe!

Perdera os vestígios de auto-estima nas humilhações que havia sofrido na adolescência. Hoje para os olhares desatentos do mundo passava indiferente, mas por dentro ainda era aquela frágil menina com o coração inundado de lagrimas. Julgavam-na fria e forte. Mas era a sutileza quebrada pelos ventos fortes da vida e a fraqueza erguida pelas mãos vis que lhe estenderam apenas pedras quando precisava de suporte. Toda noite encontrava consolo nas garrafas de vinho baratas e colecionava desgraças.

- Será que algum dia acordarei sem querer te matar?

Toda manhã era um processo doloroso o encontro com o espelho.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Serás por eles, por ti morrerás.

1944. A primavera acabara de chegar e naquele dia o sol raiava com a dor de luto de mais alguns judeus, deficientes e outros que haviam sido mortos enquanto a lua sangrava na noite anterior. Ele acordou, já havia tomado seu café e repassava as perguntas na cabeça. Fitava o espelho treinando as faces ameaçadoras, sua mão tremia e a caneta prata, guardada para dias especiais, perdia a tinta barata pelo suor excessivo de sua mão. Tornara-se jornalista há 3 anos, e conseguira um emprego num dos mais conceituados jornais há 12 meses. O trabalho, assim como a missão daquele dia, era mais um presente do diretor ao pai do rapaz. Para o jovem de óculos grandes, testa enrugada pela miopia e alguns cabelos brancos pelo estresse perfeccionista, que nada condizia com a lógica jornalística da época, a mídia era uma grande arma da força nazista. Era ariano e privilegiado, mas detestava todo o sistema violento e conturbado alemão. Havia sonhado com essa oportunidade e pretendia revelar todos os podres daquele a quem mais nutria ódio. Seria renomado, aplaudido e jamais esquecido por conta daquele dia que havia acabado de começar. Ouvira falar da habilidade de discussão e persuasão do entrevistado, mas não se deixaria levar, mesmo que todos os outros se vão nas ondas, ele iria contra a maré. A ditadura de seus pensamentos e idéias seria mais forte que a repressão de qualquer realidade.

Chegara ao escritório do Terceiro Reich da Alemanha. Um quadro mal pintado e inacabado, uma estante de livros, um ar escuro e ébrio inundava a saleta. Habituara-se a observar as testas, pelo desconforto da aparência de sua própria. A testa daquele homem, a quem passara a noite ensaiando palavras de afronta, tinha rugas de dores passadas, abaixo delas, quase que escondidos, os olhos transpiravam um sentimento mesclado. Conseguiu respirar raiva, muita raiva. Havia outro cheiro sem classificação, um quê hipnotizante, era impossível desprender daquele olhar enigmático, que o fazia balançar a caneta carente de anotações. Quando ousou revelar o começo de seu texto ensaiado, foi interrompido pela voz suave de Hitler, que falava de como saudosa era a cadeira que estava do lado da que se postava sentado. Era nela que costumava sentar seu querido antigo companheiro de trabalho, que jazia num importante cemitério germânico. O jovem rapaz pensava em como o velho poderoso julgava seu trono importante a ponto de cometer tantas atrocidades e ousou iniciar uma fala, mas não conseguiu terminar.

- Queira ter o prazer de sentar-se nessa tão prezada cadeira, disse Hitler.

E lhe estendeu a mão como num convite irrecusável para seu mundo, que num segundo tornou-se tão acolhedor. Quando se deu conta, o entrevistado havia mudado seu discurso para a importância do jornalismo e da sensação de privilegio que tinha de ter um representante de um grande jornal em seu gabinete.

O segundo aroma desconhecido de seu olhar revelou-se: carisma. Era como se para aquele homem, o corpo decadente e repulsivo tivesse sido escolha do destino, mas sua voz, seu olhar, o balançar de sua cabeça, e o dançar de suas mãos fossem bordados nas mãos de uma fina e linda mulher. O jornalista balbuciou o questionamento de alguns feitos do presidente, havia mudado o curso do interrogatório, sem saber muito o porquê. O algoz entrevistado falava da recente descoberta do colete salva-vidas, resultado da competência de seus homens e da utilidade de seus conhecimentos. O relato da entrevista ganhava corpo: omitira-se a parte de que as várias descobertas levavam bagagem de sangue e mortes de cobaias involuntárias. O jornalista ganhava alma: omitiram-se seus ideais, era ciente de todas as calamidades, mas as vestia de nacionalismo e amor pelo país. Aquele homem que de muitos choros se alimentara, sorria cordial, e ganhava aplausos em forma de letras. "Ora, se a Alemanha ariana o apoiava, muita certeza o povo deve ter." A tarde chegou ao fim e o principiante jornalista se viu no começo, entrara para o mundo real. Aquela tarde nunca, de fato, seria esquecida. Mesmo que para a Alemanha fosse apenas mais uma reportagem confortadora, para ele, o marco inicial de sua vida. Era, enfim, jornalista. Não poderiam estar mais orgulhosos o Reich e todos os outros governantes de uma nação.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

FELIZ COCA COLA!

As mensagens sobre a efemeridade da vida, perdão ao próximo e o recomeço inovador entopem as caixas de entrada dos celulares e emails; o otimismo exagerado inunda o mundo cibernético e o Orkut assemelhasse a reuniões de alcoólicos anônimos com todos os conselhos de como a vida pode mudar; as doações começam para acabar com a culpa de inércia social e as pessoas terminam com a sensação de que os 365 dias valeram a pena porque, em um deles, finalmente, os brinquedos empoeirados desocuparam a estante; os perus vão ao forno porque os fiéis deixaram de comer carne na páscoa pela mesma pessoa que hoje louvam o nascimento: então é natal!

Os rios de hipocrisia que inundam o mundo no mês de dezembro são apenas um eufemismo usado para disfarçar a força do sistema econômico nas vidas humanas. Se todos os repetitivos dizeres natalinos fossem, de fato, levados a sério, os shoppings não abririam 24 horas nas vésperas do Natal. Como o homem se habituou a se enganar com seus disfarces, enquanto alguém escreve um lindo e decorado cartão de natal, na verdade se guia pelos preceitos do mercado e da televisão. As crianças aprendem a amar o natal com a sessão infinita dos filminhos sobre Jesus e as lavagens cerebrais na escola para não ficar feio adorar o papai Noel apenas por ele trazer seus presentinhos. O natal existe para salvar o mundo de uma crise econômica e o décimo terceiro chega para lotar os shoppings e avermelhar as contas bancárias. O dever de celebrar o nascimento de cristo passa como um axioma e as principais personagens das vidas humanas ficam sem homenagens (apenas com muito dinheiro), no caso do Brasil: em vez do menininho Jesus no presépio deveria existir uma coca cola e as preces deveriam ser dirigidas a Roberto Marinho, verdadeiro Deus da bíblia brasileira, a Globo.

No dia 24 de dezembro todos sentirão calor, mas enfeitarão sua árvore de natal com floquinhos de neve, estarão cansados por terem passado as noites em claro embrulhando presentes e todos os derivados da palavra comprar serão seus melhores amigos. O suor excessivo endurecerá o humor de inúmeros supostos velhinhos com barbas postiças que por algum motivo torto estarão usando botas de inverno, calças compridas, mangas longas e gorros em pleno verão brasileiro. Todos se abraçarão, presentes serão mandados em vez de pedidos de desculpas ou declarações de amor, muitos reclamarão por meio de textos de ódio à data natalina, mas todos acordarão na manhã do nascimento de cristo com um sentimento único, uma paz interior, uma felicidade inigualável, um sorriso escondido, os olhos brilhantes que vêm da certeza de que hoje, finalmente, ganharão um presente de natal!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Legalizar ou não o progresso?

O Brasil segue uma tradição em que se espera analisar as conseqüências das medidas tomadas por outros países para então adotá-las. Poder-se-ia, pois, estudar a fio quando os Estados Unidos conseguiram, ao menos nessa questão, usar sua racionalidade em prol dos direitos humanos. Na década de 90, a potência estadunidense temia a intensa criminalidade anormal e inédita até então, os estudiosos mostravam-se desesperados e preconizavam o terror para os 5 anos seguintes. Para a surpresa geral, aconteceu o oposto: Queda de mais de 50% dos índices de violência meia década depois. As explicações foram várias: leis de controle de armas, estratégias políticas, maior policiamento. No entanto, o economista Steven D. Levitt,em seu livro freakonomics, descredibiliza todas as tentativas vãs de explicar o fenômeno,e responsabiliza o fato a Norma Mccorvery. Em 1973, ela lutou e foi vitoriosa na luta pela legalização do aborto. Ou seja, 20 anos depois dos anos 70, milhares de crianças indesejadas, que teriam vidas mais propensas ao crime, simplesmente não nasceram.

Segundo dados do Ministério da Saúde, no Brasil são 1,4 milhões de abortos clandestinos por ano; 250 mil mulheres são internadas no SUS por complicações ao abortarem; e 13 a 15% das mortes maternas são conseqüências delas; no Nordeste são 85.019 casos anuais de curetagens pós-aborto. Desconsiderar esses números é ignorar um pedido tão humano da população. Não há como supor a inexistência dessa problemática cheia de riscos. A penalização como delito da realização do aborto só põe em riscos maiores mulheres pobres e negras que não têm condições de fazê-lo em clínicas particulares mais seguras.

Legalizar o aborto não é considerar determinada parcela da população simplesmente inconveniente ao país, mas dar direito a outra parcela da sociedade, as mães vítimas do descaso governamental, o direito de não piorar, ainda mais, a condição de suas vidas. Uma educação eficiente seria a solução paras os problemas brasileiros. Medidas imediatistas como Bolsa Família e Bola Escola oferecem a melhoria agora, mas e quanto ao longo prazo? O desinteresse dos presidentes com a gestão de seus futuros suplentes prende o Brasil em um eterno ciclo conjuntural. A estrutura carente de mudanças permanece abandonada. Encarar a legalização do aborto como uma possível solução para a criminalidade exacerbada do país oferece uma esperança que vai de encontro a um governo reacionário. O Brasil mostra-se despreparado para mudanças fortes tal como é habituado a conviver com paliativos. Tratando-se do caso brasileiro, do hábito surgiu a tradição.

domingo, 30 de novembro de 2008

Minhas garotas

Ter verdadeiros amigos quer dizer, também, ter espelhos convictos. Quem um dia conquistou a sorte de tê-los será sempre prisioneiro de si mesmo. Há as pessoas a quem poderás enganar com um sorriso falso, um gesto mascarado. Mas, aos seus amigos, caberá a lídima responsabilidade de desvendar-te. Será o julgamento de quem um dia insurgiu nas profundezas da tua alma que ousará desafiar os gestos externados, sendo esses luz de fora, não a sombra de dentro.

Quando um dia, às margens de uma roda de conversa, ouvires sobre ti, como um espelho revela os mais inconvenientes defeitos da face, e não puderes negar, porque os que te falam te vêem mais que você próprio, estarás condenado à eterna confiança nas palavras que te cercam. E algo no fundo, salvo aos clichês das esferas públicas, te oferecerá uma pequena esperança de conforto: terás sempre alguém a olhar-te. E esse fato será sempre conseqüência de outro: terás sempre amor.

Quando não te falo dos meus mais fieis conceitos, não é pela ausência deles, é porque eles moram em mim e se julgam escancarados, se não te dou um abraço é por já ter te abraçado muito antes, se passo indiferente às tuas declarações é porque já cansei de repeti-las na minha cabeça. Pensei que tivesses sentido todo meu carinho e amor muito antes de ousares notar que não houvesse recebido. Meus amores vivem bem e seguros dentro de mim, e se acham desprovidos de responsabilidade social.

Se os professores delas ouvissem as conversas descompromissadas sobre energia e as voltas que mundo dá não seriam injustos como às vezes são, nenhum homem as trataria mal se vissem como interessantes são elas quando são quem realmente são num ambiente tranqüilo, nenhum conhecido de primeira viagem ousaria atropelar suas frases numa conversa comum se soubessem que nos longos diálogos surgem as mais estrambólicas idéias e os mais atrevidos instintos, todos os mendigos estenderiam-lhes a mão se soubessem da compaixão irremediável que possuem, assim como muitos não desafiariam atrapalhar seus caminhos, por terem noção do perigo que as envolve quando as testas franjem. E você as olharia calado com uma enorme admiração, que lhes baixaria os olhos e faria vir à mente: Que sorte eu tenho! Num dia comum, mesmo ao as ouvir falarem sobre seus defeitos, se fossem essas as suas amigas. Eu amo vocês!

Papa e Diabo compram na mesma loja

O Papa João Paulo II, enquanto esteve sob os tetos do vaticano, adicionou mais um mandamento à rasteira modernização da igreja Católica: Serás Pop. O seu antigo subalterno e atual pontífice não ficou para trás com a introdução de um nova ordem celestial: Serás Fashion. Papa Bento XVI, que até então tinha como seu mais temido inimigo o Diabo, porém ficou claro que esse é seu principal companheiro nas tardes de shopping, mostrou temer algo mais aterrorizante: Batina coronha. A geração de alfaiates à serviço do vaticano desde 1792 foi afastada do cargo, em abril de 2004, por um desleixo que acabou deixando as vestimentas papais um tanto mais curtas que o normal. O luxo ostentado pelo Papa abrange os quatros cantos de seu recinto, e o poder transcende na mesa ao guarda-roupa. O vaticano em geral apresenta disparidades a começar pela principal fonte de seu sustento: Donativos de fiéis mundo afora.

O patrimônio do Vaticano está avaliado em mais de 700 milhões de euros, além do lucro com a Capela Sistina e semelhantes, levando a US$ 5 bilhões a sua riqueza total. O Óbolo de São Pedro é responsável por coletar as doações de 5.627 dioceses espalhadas de várias nacionalidades. Estima-se que o dinheiro arrecadado seja de 50 milhões de euro anuais dos seguidores da fé. A quantidade absurda de pessoas que contribuem para esse ciclo vicioso em poder a mais de 2000 anos de acumulação de riquezas traduz a intensa alienação humana, que permanece inquestionável. Um trabalhador se sobressair no sistema capitalista através de seu esforço é muito diferente de um status sustentado pela ilusão de vários. A redenção do mundo à imposição da igreja católica parece inquebrável e insolúvel.

Em nome do sacrifício a Jesus Cristo e do respeito ao sagrado, o Papa Bento XVI ostenta o luxo da sua devoção. Ao aparecer no ranking da revista Esquire como um dos homens mais bem vestidos do mundo, mostrou as conseqüências do seu árduo trabalho entre os prédios chiquérrimos do Vaticano. “Não têm nada a ver com vaidade, mas sim com tradição” disse o próprio. O guarda roupa de Bento XVI abriga desde Óculos Gucci a sapatos vermelhos Prada, qualquer semelhança com o cara lá de baixo não é mera coincidência.

Incoerência

O que tentei não deixar se influenciar na minha aversão pela igreja católica, prendeu-se à inconformação com a forma de pregar de muitos adeptos a ela. Quando li na internet,no site www.montfort.org.br, esse depoimento de Orlando Fedeli, que dissertou a respeito das disparidades do luxo do Vaticano e do Papa Bento XVI, meus dedos coçaram e resultaram na próxima postagem "Papa e Diabo compram na mesma loja":

"Já no Antigo Testamento Deus ordenou a Salomão que lhe construísse um Templo com os materiais mais preciosos: ouro, prata, cedros do Líbano etc. Ordenou até que o sangue dos bodes e de outros animais sacrificados fosse recolhido em vasos de ouro puríssimo. Ora, se o sangue de bodes devia ser recolhido em vasos de ouro, por que o Divino Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo deveria ser colhido em vasos miseráveis? Seria o sangue de Cristo menos precioso que o sangue de animais? Qualquer desses protestantes, seus companheiros de trabalho, ao receber uma visita mais respeitável, oferece o que tem de melhor em sua casa. Por que, para Deus, não deveríamos ofertar o que há de melhor? A Deus devemos oferecer, sim, o melhor do que temos. (...) Igreja Católica tem muitos filhos, e é natural que os filhos contribuam para o sustento de sua Mãe. Por isso a Igreja, no decorrer dos séculos, acumulou riquezas com as quais sempre manteve inúmeras obras de misericórdia."

Então, penso eu, por que haveria de ser mais importante o sangue azul do papa que a de inúmeras vidas que apodrecem na miséria?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fernando Pessoa

"Quer pouco, terás tudo Quer nada, serás livre O mesmo amor que tenham por nós quer-nos, oprime-nos Não só quem nos odeia ou nos inveja nos limita e oprime Quem nos ama não menos nos limita Que os deuses concedam que, despido de afetos, tenha a liberdade dos píncaros sem nada Quem quer pouco, tem tudo Quem quer nada, é livre Quem não tem e não deseja Homem, é igual aos deuses"

Hilda Hilst

"Quando a ternura parece já de seu ofício fatigada Quando verdes irrompem seus olhos e procuram nos meus navegação segura, é que eu te falo das palavras desamparadas e desertas pelo silêncio fascinadas"
"Se é que a vê, que de tantas milhares de vezes que ali sentou e não vê já, e é esse que é o seu erro, sempre foi, não reparar nas cadeiras em que se senta por supor que todas são de poder que só ele pode" * trecho do livro Objecto Quase, José Saramago.
"Em um algum lugar de Pernambuco, de cujo nome não quero lembrar. Passou, há muito tempo, uma dessas carruagens, cheia de sentimentos, pretensões e algumas estripulias mirabolantes. Havia mágica, palhaços, bêbados, uma bailarina e alguns sonhadores enganando a todos. O roteiro traçado pelo destino seguiu de forma exemplar a permissão para que os presentes bebessem e pudessem naquele dia, ser quem quisessem.. Foi dada já no cair da tarde...
Parecia, que ali, não faltava ninguém.."

Marilina Ross

"Se puderes dançar pelo ar também as estrelas poderão te abraçar Não continue agarrada em tuas dores Elas não sabem dançar" Marilina Ross

Desperdício

O meu sol nasce e morre por você Para desenhar suas sombras Brilhar seus olhos Para dar-lhe a noite As minhas estrelas são suas São lembranças, sonhos e quereres de você O porto que nunca vai chegar É você. Todo o carinho guardado Os gestos contidos Os olhares marcados Os assuntos tortos Tudo isso, E O melhor de mim Que desperdício.

És

O que és é aquilo do que foges Não é o que ages, é o que pensas Daquilo que te preservas Tua liberdade é o pensamento Solitário, noturno e infiel