terça-feira, 24 de março de 2009

Redescoberta

Naquele mesmo momento, inúmeras conversas se denserolavam, saberiam as pessoas as intenções daqueles a quem falavam? Ou os julgavam pelas pinturas superficiais sobre suas verdadeiras faces? Como são perfeitas as máscaras humanas: narizes, bocas, pele, sinal, voz, cabelo.

Ele a olhava bem fundos nos olhos:

- Você acredita mesmo nisso?

Para ele os seus argumentos eram frutos podres de alguma passagem ruim. Jurou que a encontraria além da retina, que o que se passava por fora seriam reflexos superficiais. O riso nas respostas dela surgiu para dar a pitada de descaso que faltava na suposta farsa de seus ideais:

- Eu faria um aborto.

Ela analisou seus repúdios e procurou adivinhar quando teria ele solidificado seus pensamentos, fazia pouco tempo e seria apenas uma fase, ou aquela conversa era a redundância de tantas outras? Teriam seus argumentos sido penetrados nas raízes fincadas de outras cabeças? Ao esbarrar nas falas e textos alheios atinou para o, talvez, grande problema da humanidade: O horizonte entre as intimidades. Vão e voltam os segredos, atira e recebe os olhares, são tantas e tantos, mas o que são? Provavelmente todas as marionetes que circulam, falam, dormem e, geralmente, acordam, devem desejar a mesma coisa, almejar à mesma utopia e serem presos aos mesmos devaneios. O problema está na má comunicação das, que por falta de um nome mais cético, devem se chamar almas. Dispomos-nos a confrontar, a julgar, e infinitos infinitivos temperados com dissabores que azedam a convivência e a estadia da humanidade. É do encontro dos extremos dos pensamentos que nascem as guerras e as raivas. Mas por quê? Dos desencontros podem surgir redescobertas. Todos os dias, nem notamos que, bêbados de sono, ousamos vestir fantasias integrais. Perdemos a capacidade do conhecimento real do outrem. Os caminhos são sempre diferentes, daí as idéias loucas que aparecem como antíteses das outras que, por suas vezes, são tampouco sãs. Mas no fundo, somos reféns da mesma obscura complexidade. E tontos, nem percebemos.

Meros tropeços podem se transformar em grandes encontros. Aquelas conversas simples com rostos já conhecidos escondem mundos vastos e carentes de exploração. E esses são estranhamente parecidos com o mundo que guardamos para nós mesmos, nas nossas mentes bizarras, que muitas vezes julgamos sós. Se olharmos bem, por trás dos acasos comuns existem verdades bem mais interessantes que a nossa rotina cega e repetitiva.

4 comentários:

Benito disse...

Ainda bem que você voltou. Tava com uma saudade danada.

bolalá disse...

Paulo leu seu blog e ficou impressionado. Disse que não imaginava que você era capaz de tanto.

Anônimo disse...

Quando é que você vai dar sinal de vida de novo????

Anônimo disse...

Eu não sei usar este troço, daí sair "anônimo"... mas é o besta de Macau que adora o que você escreve.
Um beijo.