quinta-feira, 10 de março de 2011

Cru e Pálido

A morte cala. Cala enquanto deveria liberar as palavras prisioneiras das lembranças.

Cala porque desassossega sensações que se julgavam enterradas. E se eu não fosse desse ofício apaixonada, afundava o esforço de ater-me aos meus maiores novelos, emaranhada. A morte tornou o prazer em sacrilégio. Achou levar com alvedrio à cova abençoada, o amor de tanta gente preso às vidas sufocadas. Esse corpo que ainda vive viu morrer de si uma parte tão amada.

...

Agora tudo é mortal. Antes, havia a dúvida nas entrelinhas. O mundo me parece, enfim, tão instável, e eu tão impotente. A morte tirou de mim a minha crença infantil num final feliz. E o pior de tudo, arrancou brutalmente do meu corpo, a força inigualável das palavras. Quanta coisa a gente quer fazer e não faz, quanta coisa quer ser dita e não é. Pra depois vir a morte e jogar em planos sujos, a nossa incapacidade de viver.

Logo ele, tão forte. Já dizia seu codinome Imperador, deixou a certeza que foi muito antes de fazer todo o bem que arquitetava. Lá estava ele, distante, reinando um trono tão seu e tão imortal.

As palavras, outrora tão vivamente livres, agora tão arduamente decifradas. Agora não tem mais Tio Benito a tecer comentários sobres meus textos, a incentivar a minha vontade de viver das palavras, e a encher meu coração ao se dizer orgulhoso da sobrinha que era sangue vivo do seu sangue. Foi sem saber, que alguém bem longe, falava fascinada do seu modo de viver e esperava ansiosamente por suas repentinas aparições na minha vida. Foi sem saber que há muito planejava com cautela escrever o tamanho da admiração e do desejo de ser um pouco do que ele é, mas sempre deixava pra depois.

Agora eu entendo o som aflito das palavras que estão condenadas ao anonimato. Como não há pior tristeza, à morte resta algum sentido. Que o prenúncio da Inesperada, plante em nós uma vontade louca de viver e sair gaguejando dizeres doidos para ganhar corpo. Que a morte sirva para dar luz ao grito forte da aparente escuridão do coração de toda gente. Que as almas ingênuas prevejam a dor da solidão e não se condenem a chorar o amargo do não dito.

E esse texto, por mais que ajude a tirar o peso que ando carregando, de tão fraco, tornou-se pálido.

8 comentários:

Amanda Borba disse...

Beatriz, não me contive em lágrimas. O teu peso é meu também. Nada mais real, nada mais "ombro amigo".

pontoregular @ gmail . com disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André disse...

Me pegou com esse, você me impressiona.

lapislazuli disse...

Lindo, biazinha tb linda. Ele ficaria(rá) orgulhoso. Siga em frente. beijo, b.

Regina Barros disse...

Que belo texto, Bia. Benito tinha razão quando fazia entusiasmada 'publicidade' do seu blog. - "Ela escreve bem demais, hômi!!!", falava sempre em sua permanente corujice diante do talento dos sobrinhos, por ele tão amados. Mulher, numa linguagem bem macauense, seu texto é forte como o Café de Pachêco. Abraço. Regina

Ellen Cocino disse...

Não conti lágrimas. Você é a linha que surpreende qualquer palavra inserida nela.
Amo você!

Amanda Borba disse...

volto a esse texto sempre. Nada mais cru, como o próprio título diz. Mas o pálido não me vem de forma alguma. Suas palavras tem cor, cada uma delas. Não é um colorido brilhante de felicidade, mas são cores do orgulho que vc sentia por ele, são as cores do amor, minha linda!

Giovanna Moraes disse...

Meu corpo é só arrepios..
Seus textos são maravilhosos, Bia.
Um beijo!